sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Purgatório – Viagem épica (Parte I)

Nota prévia:
"Pelo seu conteúdo que é passível de ser considerado muito perturbador, aconselha-se todos os leitores mais susceptíveis em termos religiosos, a saírem deste espaço, enquanto é tempo... depois não digam que não avisei!"
Como os tempos são difíceis em consequência da crise financeira que se alastra, há que aproveitar bem as oportunidades que nos surgem.
Foi aproveitando uma excepcional promoção da agência Ecclesia, especialmente concebida para o Feira das Comendas, que embarquei numa épica viagem rumo ao purgatório, esse lugar esotérico onde as almas são expostas a um processo continuo e terrível de depuração.
Para começar e porque a liquidez financeira, do momento, não é muito expressiva, há que fazer a reserva da passagem em classe económica.
Primeiro motivo de reclamação, não aconselhamos viagens em companhias "low cost" (baixo custo). Fui meticulosamente enfiado dentro de uma estranha caixa em madeira,com 1,85m por 0,6m.
Apesar do espaço ser muito confinado, estava bastante bem mobilado e ornamentado a preceito, tudo com muito bom gosto. Possuía uns panos esquisitos que serviam de cortina, além disso havia uma espécie de lenços rendilhados para assoar o nariz.
Devo confessar que a viagem não foi muito confortável, lamentando a ausência de uma escotilha que permitisse apreciar a paisagem durante o percurso.
Chegado ao purgatório, para grande surpresa minha dei de caras com o Jim Morrison com uma garrafa de whisky na mão (mas que continha cerveja fresca), sentado num vão de escada a partilhar um "pica" com o Kurt Kobain.
Apesar de ambos estarem com muito mau aspecto, muito sujos, roupas esfarrapadas, cabelos desgrenhados, sebentos e com alguns bichos parasitas, todos ressacados e com a barba por desfazer, não resisti à oportunidade única e consegui logo, dois autógrafos.
Fiquei entretanto a saber pelo Kurt, que o Morrison de vez em quando faz umas incursões ao purgatório (devidamente autorizado por Satanás), para matar saudades de umas fresquinhas (cervejas), porque na sua residência natural que são as profundezas do inferno, não é possível obter cerveja fresca. O próprio Kurt Kobain só se encontra no purgatório a estagiar, para atingir o nirvana.
Paragem seguinte...
Porque estava sequioso, fui beber uma fresquinha ao bar da Purificação. Entrei discretamente, numa mesa do lado direito estava Boris Ieltsin a saborear uma Vodka simples, do lado esquerdo estavam o Obélix e o Astérix a conspirar um ataque aos romanos a partir do purgatório... sentei-me ao balcão e fui atendido por uma esbelta e atraente mulher.
Pedi a cerveja...fiquei por instantes com o olhar preso às silhuetas pontiformes daquele majestoso monumento, ela apresentou-se como sendo a Maria Madalena, entretanto outra senhora acabada de entrar sentou-se a meu lado, por instantes fiquei com a impressão que a conhecia de algum lugar... disparate! Pudera eu conhecer aquela senhora que tinha umas vestes tão estranhas e era feia como o Cérbero (para quem não sabe, Cérbero era o cão de Hades, senhor do mundo dos mortos na mitologia Grega e é representado por três cabeças), mas se preferirem, a fealdade da senhora assemelhava-se à Górgone (também mitologia grega associada aos mortos), adiante... A senhora sentou-se a meu lado e apresentou-se, o seu nome era Lúcia.
Preferi concentrar a minha atenção na Maria Madalena, que com uma voz encantadora me ia explicando as agruras da vida e a dificuldade que ia tendo em administrar aquele espaço, que era uma espécie de bordel mesclado de bar de alterne.
Maria Madalena lançou-se naquele ramo de actividade, desde que Jesus a surpreendeu na cama com o Cónego Melo, claro está que Jesus não podia ficar no céu com o epíteto de touro manso, vai daí pediu a intervenção de Deus que de imediato a expulsou do seu reino.
Para Maria Madalena a actual crise económica mundial não justifica de todo uma redução da procura do seu espaço comercial, tanto mais que não é previsível que a crise venha a afectar a economia do purgatório.
As causas são outras e prendem-se com, a decrescente qualidade do serviço prestado por mão-de-obra pouco qualificada, que só consegue atrair "borracholas" como o Ieltsin.
Apesar de tudo Maria Madalena está com algum optimismo, apesar de contido, sempre vai dizendo, que espera que um raio de luz rompa com as trevas, em que padece o negócio.
É preciso apostar no marketing e nada melhor que preparar uns shows de strip acompanhados de dança no varão.
Enquanto Maria Madalena falava eu ia acenando levemente a cabeça em gesto de compreensão e afirmação.
Entretanto, entrou na conversa a Lúcia que procurava emprego, depois de ter sido expulsa também do reino dos céus, pelo facto de ter afirmado convictamente que tinha visto a Virgem Maria (mãe de todas as virgens) a reluzir de forma incandescente no cimo de uma azinheira, ora Deus que é grande e omnipresente não tolera este tipo de insanidade mental e desterrou a Lúcia em viagem só de ida para o purgatório.
Além disto, o céu é um lugar divino e sagrado e lá só se podem quedar mulheres que comprovadamente sejam puras, limpas de pecado e de preferência com todas as partes do corpo ainda intocáveis.
Deus promete começar a ser mais selectivo nas suas escolhas e já tem na calha das suas aquisições, nomes sonantes como Madonna ( enquanto cantar o "Like a virgin"), a Britney Spears, a Cicciolina, a Soraia Chaves e também... a Luciana Abreu. Estas têm as portas do céu e não só, completamente escancaradas e à sua espera.
Fiquei verdadeiramente comovido com a história de Lúcia, e intercedi junto de Maria Madalena para que acolhesse aquela pobre mulher no (s) seio (s) da sua actividade comercial.
Terminada a cerveja pedi a conta, pronto para sair dali, não fossem as más-línguas insinuarem coisas que não são verdades, e pronto também para descobrir que outras maravilhas surpreendentes nos reserva o purgatório.
- Conta por favor!
- São 10 euros.
- Pu...ta que pariu, 10 euros !!!??? Foda...se!!!! o custo de vida no purgatório está pela hora da morte!


Continua... amanhã para quem tiver tido paciência de ler hoje.

Fonte: feiradascomendas


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